Quando eles se conheceram, ela morava ao lado da Praça Raul Soares. Ele passava para buscá-la e iam passear na praça de mãos dadas. Minha avó se debruçava na janela, dedicando seu rigoroso olhar a cada passo do casal. Em algum ponto da circunferência, os dois saíam do seu campo de visão. Gosto de imaginar que nesses poucos segundos eles se beijavam. Andar de mãos dadas me parecia pouco para um casal apaixonado.
Cinquenta e seis anos, cinco filhos e oito netos depois, meu pai e minha mãe já não estão aqui para se dar as mãos. São tempos outros, em que namoros podem começar sem que duas mãos se toquem — bastam palavras e imagens para unir pessoas de lados opostos do mundo. No entanto, nas ruas, permanece o hábito de passear de mãos dadas. O que mudou foi o meu olhar.
Às vezes passo semanas trabalhando exaustivamente, ao fim das quais me sinto a léguas do meu marido — nada como o cansaço para afastar duas pessoas em seus mundos particulares. Mas, quando vamos ao supermercado e ele me estende as mãos ao sair do carro, o significado daquele gesto é capaz de me devolvê-lo inteiro.
Lembro-me da primeira vez em que sua mão tocou a minha. Muito já havia sido dito na troca de olhares e histórias de quem viveu um bocado. Mas foi pelas mãos que me apaixonei primeiro. Mãos brancas cujas formas e movimentos entregavam a nobreza de alma de quem batia à minha porta. Depois do jantar, saímos de mãos dadas do restaurante. O pacto estava feito.
Quando a falta da minha mãe me atormenta o coração, é de suas mãos a primeira saudade que sinto. Feita de afeto do primeiro ao último de seus 155 centímetros de altura, ela se revelava na suave coreografia dos dedos durante o cafuné.
Meu pai tinha mãos bonitas, mas eu as temi por algum tempo. E foi em pleno Cemitério do Bonfim que elas conquistaram as minhas, unidas pela dor da despedida, mesmo que aliviadas pelo fim de um sofrimento. Ali passamos a andar de mãos dadas.
Ainda sinto a textura dos dedos compridos e calejados de minha avó paterna, feitos para cuidar do jardim e ostentar um elegante anel de ouro no mindinho. Foram-se os dedos, o anel ficou comigo — e ele me reconta toda a história.
Nessa estrada de mãos inesquecíveis, foi a menor delas que mudou minha vida. As pequeninas mãos do meu filho, ao nascer, finalmente me provaram ser verdade o que eu vinha carregando havia meses na barriga. No esforço de cinco dedinhos agarrados ao meu indicador, começava a nossa aventura. Sei que depois das minhas virão muitas outras — e peço que lhe sejam sempre carinhosas.
O toque de mãos é entrega profunda. Encostar uma palma na outra é de uma intimidade sutil que diz muito sobre o amor ali presente. Levar um filho pela mão é ser seu guia nessa viagem pelo mundo: mostrar as belezas, alertar sobre os perigos. Estender a mão a uma pessoa idosa, lenta e pacientemente, é uma forma de lhe devolver o que ela provavelmente lhe fez — mesmo que tenha sido apenas (e tanto) uma palavra de sabedoria.
Corra o olhar pelas ruas e observe. Quantas pessoas seguem de mãos dadas? Em um longo silêncio, o casal de velhinhos na varanda parece não ter mais assunto. Mas suas mãos entrelaçadas dizem tudo.
Por CRIS GUERRA da revista VEJA BH


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